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sábado, 5 de fevereiro de 2011

Terapia Cognitiva

Penso, logo sinto.

A terapia cognitiva é uma abordagem estruturada, diretiva, ativa, de prazo limitado, usada para tratar uma variedade de transtornos psiquiátricos (por exemplo, depressão, ansiedade, fobias, queixas somáticas, etc.). Ela se fundamenta na racionalidade teórica de que o afeto e o comportamento de um indivíduo são, em grande parte, determinados pelo modo como ele estrutura o mundo (Beck, 1997).

O modelo da terapia cognitiva baseia-se na visão de que estados estressantes, como ansiedade e depressão, frequentemente são mantidos ou exacerbados por maneiras de pensar exageradas ou tendenciosas. O papel do terapeuta é ajudar o paciente a reconhecer seu estilo idiossincrático de pensamento e a modificá-lo pela aplicação da evidência e da lógica. Portanto, a terapia cognitiva origina-se de uma linha antiga e respeitada de modelos baseados na razão, como os diálogos socráticos fundamentados na lógica e o método aristotélico de coleta e categorização de informações sobre o mundo real (Leahy, 2006).
A terapia cognitiva é um modelo em que as situações ativam pensamentos, que geram uma conseqüência com respostas emocional, comportamental e física. Há uma interação recíproca de pensamentos, sentimentos e ambiente (Knapp, 2004).

Qualquer alteração em um dos componentes supracitados interfere nos demais. O trabalho na terapia cognitiva inicia geralmente tentando identificar os pensamentos automáticos. Todos temos pensamentos automáticos, eles não são exclusivos de portadores de transtornos psiquiátricos (Wright, 2008).

Temos milhares de pensamentos diariamente, muitos dos quais passam totalmente despercebidos, porque não estamos conscientes deles. Constantemente interpretamos e avaliamos situações que ocorrem conosco. Quando as pessoas tem problemas, algumas vezes é porque elas interpretam os eventos inadequadamente e, em conseqüência, reagem de uma forma inadequada. Outras vezes, a pessoa enxerga a situação de uma forma acertada, mas não sabe lidar com ela de maneira adequada. Na terapia cognitiva, o trabalho é principalmente identificar os pensamentos que passam na cabeça da pessoa, descobrir se as avaliações e interpretações que ela dá para as situações estão acertadas e se é útil pensar e olhar para as coisas da forma como a pessoa olha (Knapp, 2004).

O autor nos apresenta um quadro com as principais distorções cognitivas (pensamentos disfuncionais), vejamos abaixo:

1. CATASTROFIZAÇÃO : pensar que o pior de uma situação irá acontecer, sem levar em conta a possibilidade de outros desfechos. Acreditar que o que aconteceu ou irá acontecer será terrível e insuportável. Eventos negativos que podem ocorrer são tratados como catástrofes intoleráveis, em vez de serem vistos em perspectiva.
Exemplos: perder o emprego será o fim da minha carreira. Eu não suportarei um divórcio. Se eu perder o controle, será meu fim.

2. RACIOCÍNIO EMOCIONAL: presumir que sentimentos são fatos. “sinto, logo existe”. Pensar que algo é verdadeiro porque tem um sentimento (na verdade um pensamento) muito forte a respeito. Deixar os sentimentos guiarem a interpretação da realidade. Presumir que as reações emocionais necessariamente refletem a situação verdadeira.
Exemplos: Eu sinto que meu marido não gosta de mim. Eu sinto que os colegas estão rindo de mim. Sinto-me desesperado, portanto a situação é desesperadora.

3. POLARIZAÇÃO (pensamentos tudo ou nada): Ver a situação em duas categorias apenas, mutuamente exclusivas, em vez de num continuum.
Exemplos: Deu tudo errado na festa. Devo tirar a nota máxima ou serei um fracassado. Ou algo é perfeito, ou não vale a pena. Todos me rejeitam. Tudo foi uma grande perda de tempo.

4. ABSTRAÇÃO SELETIVA (visão em túnel, filtro mental, filtro negativo): Um aspecto de uma situação complexa é o foco da atenção, enquanto outros aspectos relevantes da situação são ignorados. Uma parte negativa (ou mesmo neutra) de toda uma situação é realçada, enquanto todo o resto positivo não é percebido.
Exemplos: Veja, todas essas pessoas não gostam de mim. A avaliação do meu chefe foi ruim (focando apenas um único comentário e negligenciando todos os positivos).

5. ADIVINHAÇÃO: Prever o futuro. Antecipar problemas que talvez não venham a existir. Expectativas negativas estabelecidas como fatos.
Exemplos: Não irei gostar dessa viagem. Ele não aprovará minha decisão. Dará tudo errado.

6. LEITURA MENTAL: Presumir, sem evidências, que sabe o que os outros estão pensando, desconsiderando outras hipóteses possíveis.
Exemplos: Ele não está gostando da minha conversa. Ele não gostou do meu projeto. Ele está me achando inoportuno.

7. ROTULAÇÃO: Colocar um rótulo global, rígido em si mesmo, numa pessoa ou situação, em vez de rotular ou o comportamento específico ou a situação.
Exemplos: Sou incompetente. Ele é uma pessoa má. Ela é burra.

8. DESQUALIFICAÇÃO DO POSITIVO: Experiências positivas e qualidades que conflituam com uma visão negativa são desvalorizadas porque “não contam” ou são triviais.
Exemplos: O sucesso obtido naquela tarefa não importa, porque foi muito fácil. Eles só estão elogiando meu trabalho porque estão com pena.

9. MINIMIZAÇÃO E MAXIMIZAÇÃO: Características e experiências positivas em si mesmo, no outro ou nas situações são minimizadas, enquanto o negativo é maximizado.
Exemplos: Eu tenho um ótimo emprego, mas todo mundo tem. Obter notas boas não quer dizer que sou inteligente, os outros obtem melhores notas do que as minhas.

10. PERSONALIZAÇÃO: Assumir a culpa ou responsabilidade por acontecimentos negativos, falhando em ver que outras pessoas e fatores também estão envolvidos nos acontecimentos.
Exemplos: O chefe estava com a cara amarrada, devo ter feito algo errado. É tudo culpa minha. Não consegui manter meu casamento, ele terminou por minha causa.

11. HIPERGENERALIZAÇÃO: Perceber num evento específico um padrão universal. Uma característica específica numa situação específica é avaliada como acontecendo em todas as situações.
Exemplos: Eu sempre estrago tudo. Eu não me dou bem com as pessoas.

12. IMPERATIVOS (“deveria” e “tenho que”): Interpretar eventos em termos de como as coisas deveriam ser, em vez de simplesmente considerar como as coisas são. Afirmações absolutistas na tentativa de prover motivação ou modificar um comportamento. Demandas feitas a si mesmo, aos outros e ao mundo para evitar as conseqüências do não cumprimento dessas demandas.
Exemplos: Eu tenho que ter controle sobre todas as coisas. Eu devo ser perfeito em tudo que faço. Eu não deveria ficar incomodado com isso.

13. VITIMIZAÇÃO: Considerar-se injustiçado ou não entendido. A fonte dos sentimentos negativos é algo ou alguém, havendo recusa ou dificuldade de se responsabilizar pelos próprios sentimentos ou comportamentos.
Exemplos: Meu marido não entende meus sentimentos. Faço tudo pelos meus filhos e eles não agradecem.

14. QUESTIONALIZAÇÃO (e se?): Focar o evento naquilo que poderia ter sido e não foi. Culpar-se pelas escolhas do passado e questionar-se por escolhas futuras.
Exemplos: Se eu tivesse aceitado o outro emprego, estaria melhora agora. E se o novo emprego não der certo? Se eu não tivesse viajado, isso não teria acontecido.

A medida que o paciente começa a identificar e nomear distorções cognitivas, inicia-se um trabalho no desenvolvimento de respostas alternativas para contrapor o impacto negativo dessas interpretações disfuncionais (Knapp, 2004).

Surge, assim uma pergunta:

O pensamento positivo seria a solução?

Não. Padesky, em “A mente vencendo o humor” (1999) esclarece a questão, vejamos:

Embora nossos pensamentos influenciem nosso humor, comportamentos e reações físicas, o pensamento positivo puro e simples não é a solução. A maioria das pessoas ansiosas, deprimidas ou irritadas diz que “ter apenas pensamentos positivos” não é tão simples assim. De fato, se realmente tentarmos ter somente pensamentos positivos quando experimentamos um estado de humor forte, podemos não perceber sinais importante de que algo está errado.

A terapia cognitiva sugere, ao contrário, que a pessoa considere o maior número de ângulos possível de um determinado problema. Olhar a situação de muitos pontos de vista diferentes (positivos, negativos e neutros) pode levar a pessoa a novas conclusões e soluções.

Suponhamos que uma pessoa, que chamaremos de Marisa, perdeu o emprego. Se Marisa acreditar que foi despedida por ser estúpida e por ter cometido erros demais e se concentrar somente nessas idéias, provavelmente ficará deprimida e se convencerá de que não poderá ter sucesso em nenhum outro emprego. Sua vida profissional está terminada, é fim de linha.

Entretanto, se além de repassar seus erros, Marisa pensasse sobre suas qualidades profissionais poderia se concentrar mais objetivamente em seus pontos fortes e nas habilidades profissionais que precisam ser melhoradas, enquanto procura um novo emprego. Talvez, a perda do emprego não fosse inteiramente, nem mesmo em parte, sua culpa. Talvez, tivesse sido despedida devido a problemas econômicos da empresa ou devido a uma discriminação no trabalho.

Assim, percebemos que a interpretação que damos aos eventos, os pensamentos e crenças que construímos são os responsáveis por nossos estados de humor e , consequentemente, por nosso comportamento.

Fica claro que a terapia cognitiva não é um processo para estimular o pensamento positivo. Ao contrário, ela demonstra o poder do pensamento realista, isto é, na extensão em que se pode conhecer a realidade (Leahy, 2006).

O mesmo autor continua elucidando que o sistema de conhecimento sobre o qual a terapia cognitiva se baseia é aberto. Novos fatos e evidências podem surgir. Portanto, o terapeuta cognitivo apresenta ao paciente uma visão pragmática do conhecimento – em essência, formulando a pergunta central: “como esse pensamento vai afetá-lo?”. Ou: “que conseqüências você vai vivenciar ao acreditar que precisa da aprovação de todos?”. O objetivo é fazer com que o paciente perceba que sentir desaprovação, por exemplo, não resulta em nenhuma mudança na sua vida real. O intuito é testar, de forma pragmática, o terror evocado pela crença.

Referências:

BECK, Aaron T. “Terapia cognitiva da depressão”. Porto Alegre: Artmed, 1997.

GREENBERGER, Dennis & PADESKY, Christine. “A mente vencendo o humor”. Porto Alegre: Artmed, 1999.

KNAPP, Paulo. Terapia cognitivo-comportamental na prática psiquiátrica”. Porto Alegre: Artmed, 2004.

LEAHY, Robert L. “Técnicas de terapia cognitiva: manual do terapeuta”. Porto Alegre: Artmed, 2006.

WRIGHT, Jesse H. & outros. “Aprendendo a terapia cognitivo-comportamental: um guia ilustrado”. Porto Alegre: Artmed, 2008.

KARINA ALECRIM BESSA

15 comentários:

Nilce disse...

Gostei muito da sua postagem Karina.
Somos ignorantes no assunto e achei muito interessante sua explicação.
Obrigada por compartilhar seu conhecimento.

Excelente domingo para você.

Bjs no coração!

Nilce

Karina Bessa disse...

Olá Nilce!

Fico feliz que tenha gostado.

Bjs e um ótimo domingo!

Ka.

Viviane Alves disse...

Olá Karina, ví que vc está que me seguindo e passei pra agradecer sua visita em meu blog. Tem selinhos pra vc lá, qdo puder, passa pra pegar Ok!
tenha uma ótima semana, bjs

Luxo de Pink disse...

Mto esclarecedor esse post, Karina! Adorei;)

Mil desculpas pela demora em responder seus recados!!! Nao tenho tido mto tempo para o blog e ando enrrolada pra responder tudo, mas eu demoro, mas respondo, ta. Tenha paciencia cmg;)))rsss...

Nao consegui te seguir no dia, pq dava erro, mas ja to seguindo, ok!


Bjinhosss e volte sempre:)))

Karina Bessa disse...

Vi,

Já peguei os selinhos (lindos!). Obrigada! Estão na pagina de selos.

Bjs,

Ka.

Karina Bessa disse...

Fique tranquila LP. Eu tb sou um pouco devagar no blog...rs...

Ah, sim, estarei sempre por lá. Adoro suas dicas!

Bjs,

Ka

Ayanne Sobral disse...

Poxa, que legal!
Adorei as informações, o texto, o blog, tudo!

Seguindo (:

Ana Paula Santiago disse...

Oi !
Vim retribuir o carinho e te seguir tb.
Bjs

zehumberto disse...

Belo trabalho Karina.
Tecnicamente perfeito. Instrutivo para todos leitores. Já se nota a profissional que teremos em breve!
Parabéns!!!

Karina Bessa disse...

Ayanne e Ana Paula, fico feliz em tê-las por aqui. Voltem sempre! :)

Karina Bessa disse...

Dr. José Humberto,

É uma honra ver um comentário seu em meu blog!!!

Muito feliz em tê-lo como seguidor! :)

Viviane Alves disse...

Linda, tem selinho no meu blog pra vc, passa lá pra pegar!
bjs

Cantinho She disse...

Interessantíssimo, gostei muito e fiquei bem curiosa... A primeira foto está maravilhosa!
Beijo, beijo!
She

Andréa Vargas disse...

Olá tbem!
Menina seu blo é muito bom, não consegui parar de ler.
Parabéns.

Karina Bessa disse...

Fico feliz com as visitas!
Que bom que vcs estão lendo e gostando. Isso me anima a continuar escrevendo. :)

Bjs,

Karina.